Aos amigos que possuem uma imaginação de dragões roxos que tomam chá e discutem Dostoiévski.
Aos que viram a cobra comendo o elefante, no lugar do chapéu.
Ao Woody Allen.
Felipe tinha um relógio diferente de todos os outros que existiam no mundo. O relógio tinha apenas um problema, ele só marcava dois horários: meio dia e meia noite. No resto do dia, o tempo todo era dele. E apenas dele. Talvez isso esteja tão certo (!), que mais relógios deveriam se revoltar contra os seres humanos. Sim! E que seja feita uma nova lei no mundo dos relógios, colocada em pauta na próxima reunião sindical! Esses pobres objetos cansados de informar horas, minutos, milésimos, são explorados! Colocados em pulsos, em paredes, em lojas. Escravizados, os coitados, mal cuidados, feitos de sabe se lá que material! ( Os de plástico se sentem menosprezados pelos relógios de ouro, de marcas famosas ). Não quero ser defensora da causa, mas se o tempo é dinheiro, os relógios deveriam ser pagos. Não?
De qualquer maneira, esse relógio em questão, tinha uma forte personalidade. E desde que foi dado de presente à Felipe por um tio de terceiro grau, nunca mais saiu do seu pulso. Vejam bem, era um bonito relógio de pulso, Rolex, que deixaria babando até o mais hipster dos hipsters do século XXI. E Felipe que sempre foi apaixonado por relógios, se acostumou a ele, e mais do que isso, se apegou. Resolveu chamá-lo de Rex, na falta de animais de estimação. ( O rapaz era muito alérgico, e sua mãe muito paranóica com a limpeza da casa ).
Felipe geralmente acordava umas 8 horas e chegava as 10 no trabalho. Por isso, contava com seu despertador, e com seus 4 outros relógios que apitavam, mesmo sabendo que seu relógio interno era aguçadíssimo. E as vezes, no mais tardar, contava com sua mãe batendo em sua porta: “você está atrasado!!!”. Dias assim já começavam meio tumultuosos para ele, com níveis altíssimos de cafeína e estresse. É que existe essa dúvida sobre o quê Felipe odiava mais: se atrasar ou conviver com as pessoas do trabalho. De fato, ele não gostava de conviver com ninguém. E só morar com sua mãe já parecia um suplício.
Nesse dia específico que vos conto, 28 de março de 2012, foi um desses dias fatídicos em que seu relógio interno falhou, seu despertador não tocou e todos os outros relógios esqueceram de apitar. Seu celular tinha caído na privada no dia anterior, sem explicação aparente, enquanto ele estava lendo Moby Dick. Sim, merda! Tudo falhou e sua mãe, pelo que parece, tambem esqueceu de acordá-lo. Já eram 10:30 quando ele saiu de casa, irritado, puto, com vontade de explodir alguma coisa. Olhou para o lado e perto do ônibus viu uma velhinha fofa, daquelas bem velhinhas de olhos claros, com um gorrinho de crochê pra se proteger do frio. ”Demoraria aproximadamente 3 minutos e 4 milésimos de segundo para eu explodir essa velhinha”, ele pensou e riu. Uma risada meio doída, não tão sádica, mais penosa. Ele sabia que nunca teria capacidade de fazer algo do tipo. E a sensação de impotência em causar dor aos outros, doeu muito mais nele.
Chegou no trabalho por volta das 11:15 e a primeira coisa que ouviu, entrou na sua cabeça como uma pérola dos clichês de sua vida:”Você está atrasado Sr. Veiga. Espero que não vire um costume. Afinal você não quer que comecemos a descontar do seu salário, não né? filho.” Dois cliques em sua mente. Um: pensando na velhinha que ele não explodiu, que poderia muito bem ser substituída pelo seu chefe. O segundo era mais intenso, surgiu do pronunciamento da palavra “filho”, desse modo tão natural que os homens mais velhos tem em lidar com os mais novos. Esse deu um asco em Felipe, uma ânsia de vômito absurda. Olhou para o relógio na esperança de que já fosse meio dia e ele pudesse sair para almoçar sozinho.
Deveria faltar um tempo. O seu vício por horários o fazia ter uma noção maior do tempo que passava ou não. Foi até sua sala, onde tinha uns 4 relógios, mas incrivelmente todos estavam pifados. E Rex se recusava a ajudar na situação. “Porra Rex, vamos lá amigo…”. De fato, sem muitas dúvidas, Rex era a única coisa que Felipe chamava de “amigo”. Como já dito, ele não gostava muito das pessoas e essa foi uma característica que o perseguiu a vida toda. No berçário, no colégio, na faculdade.
Meio-dia – horário do almoço. Felipe come um cheeseburguer e bebe um suco no boteco da esquina. Quem dera fosse uma cerveja! Pois vocês sabem, as vezes uma cerveja durante o almoço tambem é muito bom pra ficar pensando melhor. E além do mais, olha só que dia ele teve! Lei de Murphy funcionando na última potência! É sempre assim: quando o dia está uma merda, você só atrai coisas piores. É tudo energia, ele bem sabia. Costumava pegar livros de física quântica na biblioteca perto do trabalho, mas não via a serventia daquilo para sua relação com os outros. Não se sentia parte de um grupo social, ou de nada do tipo. Buscava a perfeição molecular que o faria se isolar completamente da influência enérgica das outras pessoas.
Mas a vida tava complicada, ele não podia negar. Estava em uma fase típica, em que ser tão racional já não fazia muito sentido. Nesses tempos terríveis quando já não se é mais criança, em que é preciso definir o que você é de verdade, ou melhor, quais são suas tendências a ser alguém X no futuro. E que tipo de pessoa você quer ser. Uma fase odiável, sem dúvidas, em que ele não podia mais viver lendo e esperando que o tempo passasse. Ele sempre foi muito inteligente, mas precisava de qualquer outra coisa, que o fizesse sentir, alguma coisa que o fizesse querer ter um futuro. Não sei! Viver cada dia pensando no que fez ou não fez e no que deveria fazer, estava insuficiente demais.
Outro fator que o deixava muito ansioso: ele nunca tinha se apaixonado na vida, e não tinha muita vontade. Talvez tenha sido a falta de uma figura paterna que o ensinasse os macetes de como lidar com mulheres, seus dramas, suas crueldades. Tambem não sei. Sua mãe nunca foi de conversar sobre isso com o filho, e acho que gostava da idéia de não ter que explicar sobre ponto G, camisinha, 69. Sim sim, porque se ele não pedia explicações, ela não se via na obrigação de explicar.
Ah, faço aqui uma pausa e um brinde:
Ao egoísmo materno, o que seria do nosso egoísmo se não aprendêssemos que os nossos péssimos hábitos egocêntricos, egoísticos e egolátras vem de berço?! ou seria das tetas?
tim tim.
Voltemos ao Felipe. O fato é que ele se importava com o que os outros comentavam e sabia que um rapaz de 22 anos sem experiências ( quaisquer que sejam) com outras pessoas, é de se preocupar. Nem bater punheta ele conseguia! Se sentia violando sua integridade moral, psicológica, física. E olha, meus caríssimos leitores, eu estou mesmo deixando todos esses sentimentos que rodavam dentro da cabeça dele, apenas na minha cabeça, e apresentando-os a vocês de modo meio superficial. Porque qualquer que fosse a desenvoltura que eu fosse dar a eles, eu tenho certeza de que terminaria em um livro pseudo analítico sobre o ser humano: a inteligência e a vivência empírica.
Mas era assim, ele se sentia frustrado, correndo contra um tempo que ele achava que controlava muito bem! Querendo ter a certeza de que daria conta do futuro incerto facilmente, e ao mesmo tempo, pensando em como seria lindo voltar a ser criança - bolha de sabão, pipoca doce, sucrilhos, peão, bola. A ilusão de existir um controle maior sobre o tempo que passou. Mas se lembrou de que nunca havia tido uma infância de verdade. Sua infância não foi como aquelas de livros, ou de filmes. Aliás, algumas pouquíssimas crianças de sua geração podem se gabar de ter tido uma infância gostosa, com cheiro de mato e de praia. Felipe não era uma delas, e talvez isso tenha influenciado na sua imaginação. Quer dizer, ele nunca empinou pipa; nunca teve um clubinho na árvore; nunca procurou desvendar os mistérios dos lugares por onde ia, restaurantes, casas; nem teve o primeiro beijo com uma amiguinha do jardim de infância, daqueles que tem gosto de morango, sabe? Não. Felipe sempre foi um menino muito maduro, sério, quieto. Não gostava de sair de casa, não gostava de outras crianças, e em vez de se aproximar de computadores, jogos de video-game ou filmes, sua fuga foi mais silênciosa, em letras. A paixão por livros era incondicional e extrema. Se igualava talvez, com a paixão que ele tinha em poder controlar sua própria vida, seu tempo.
Ele dedicava horas do seu dia lendo livros cujos nomes, eu mesma acho difíceis de pronunciar. Quando pequeno, sua história preferida era Peter Pan, o que se torna um tanto irônico, porque embora conhecesse a história de Peter desde os 5 anos, Felipe nunca acreditou que fosse possível. Imagina só, crianças voando, felizes. A verdade é que ele parou de ir para a Terra do Nunca, muito cedo. Se é que um dia chegou a ir.
Sua fixação por livros de ficção, de fantasia, crônicas fantásticas, era gigante! E ele fazia questão de criar paralelos com o tempo das histórias, linhas cronológicas da ficção, relacionando-as com o tempo da sua realidade. Também adorava fazer relações intertextuais entre livros, suas datas narrativas e quando foram escritos. E lia-os todos, analíticamente, como um médico com seu bisturi, fazendo incisões em cada letra, operando cada vírgula, acentuação, paráfrase.
Qual não foi a surpresa quando na tarde daquele dia, o seu relógio começou a falar e dar explicações?!
- Vo- você… você fala?!
- Só de vez em quando, quando precisam muito que eu fale. Os relógios só tem permissão pra fazer isso uma vez na vida.
- Como assim?! Porra, não tem graça, qualquer que seja a brincadeira, não tem graça nenhuma.
- Do que você está falando, Felipe? Eu estou falando com você, de verdade.
- Mas você nem ao menos tem cordas vocais! Merda, quanto café eu tomei hoje? Que dia é hoje? Que horas são?!
- Não importa. Olha…
- Eu nem sabia que relógios tinham vida. Quanto tempo dura a vida dos relógios?
- Uma eternidade.
- Puxa, uma eternidade é muito tempo. Você não se cansa de existir?
- Claro que sim. E é por isso que eu já não falo as horas hoje em dia, aliás, eu simplesmente acordo meio dia, e meia noite eu costumo sair pra noite boêmia… ouvir um samba, pegar umas relóginhas hahahahatichahahahahahahahatictactictachahahahahahahahtictac.
- Mas você não deve ter tanto tempo assim, quer dizer, um Rolex… começaram a ser fabricados em 1905, por aí…. E balada?! Como assim?! Eu eu…
- Mas eu sou muito mais antigo! Só estou nesse corpo agora. E isso não importa! Eu vim te falar uma coisa importante…
- O quê?
- Você está ficando doido. Como pode viver desse jeito?
- Como assim?
- Ora, você está falando com o seu relógio de pulso. Acha mesmo que isso é normal?
- Mas você disse que era realidade! Porra! E agora?
- Você deve se internar. Em algum hospício. Tem tomado suas pílulas azuis? Para se manter nessa realidade?
- Do que você tá falando?
- Você chegou a tomar as pílular amarelas?
- Mas não eram vermelhas?
- As vermelhas saíram de moda, faz muito tempo. Agora são as amarelas que funcionam. Que horas são?
- Você que tem que me dizer! Você que é o relógio!
- Eu já disse, é você quem me fala as horas. Eu simplesmente vivo.
- Mas… mas… eu não vivo?
- Você vive para o tempo. Eu sou o tempo. Logo, você vive para mim.
- Então…
- Sim, Sr. Veiga. Você pertence à mim. Eu te comprei faz um tempo, numa loja de seres humanos. Feito de pele clarinha e cabelos escuros, produzido em 10 de janeiro de 1990. Um ser humano de ótima qualidade, se me permite dizer, de uma das marcas mais conhecidas. Escolhi um modelo que fosse diferente dos demais, veja bem, você estava a muito tempo na loja para ser vendido… Me disseram que você estava com defeito.
- Qual defeito?
- Você não tem números.
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Rex tinha um ser humano diferente de todos os outros que existiam no mundo. O ser humano tinha apenas um problema, ele já não sabia diferenciar o que era realidade do que era ficção.