poltrona de vime

por beatnthink

Deslizou-se na poltrona de vime, queria se acomodar do melhor jeito possível, a almofada esbranquiçada escorregou junto com seu corpo, um samba. Aconchegou os músculos, silenciou, contemplou a vista de sua janela. O céu agora passava de azul para rosa, com tons de laranja, inexplicável – impressionista – um quadro de Albert Lebourg.
Acendeu então, num ritual só seu. Sentiu a ardência descer gostosa pela garganta, deu mais um trago forte, tossiu. Uma paz como poucos conhecem, ele bem sabe, uma paz de sentir seu corpo transbordando a pele. Não sei o que aconteceu antes, se o vento começou a soprar bonito ou se ele começou a cantar, só sei que a melodia foi fluindo assim, como perfume, essência, moléculas coloridas se dispersando no ar.
De Novos Baianos, Jorge Ben à Vinicius, Toquinho, Chico. Passou por Noel Rosa, mestre, com Feitiço da Vila. Pássaros voavam e cantarolavam junto com ele, e a idéia de montar uma banda de pássaros surgiu em sua cabeça com uma risadinha, um pardal como baterista, ‘veio a brisa…’, enquanto via o céu mudando de cor, um degradê de azul royal.
Foi nesse momento que ouviu um grito ensurdecedor, aterrorizante, que gelou todos os seus órgãos e o fez formigar mais do que o normal.  ‘Que porra foi essa?!’, pensou. Levantou com as pernas meio bambas, pernas de cangaceiro, capataz – meio arqueadas pelo susto. Olhou para a rua, não viu nada. Pensando bem, não era um grito de mulher, talvez nem tivesse sido um grito humano.
Considerou cantar novamente, mas mudou de tom. Quis se distrair com outra coisa que não música, passarinhos. Pegou o cachimbo, esvaziou-o. Foi até o quarto, abriu a segunda gaveta do criado-mudo, tirou um Smoking preto, não o terno. Queria um ritual completo, dedos e língua. Foi em direção à sala, fazendo um pit stop pela cozinha e novamente sentou na poltrona.
Click – gás, faísca, fogo – acendeu, deu um trago. Pensou em ligar o play 2, jogar um GTA, w11, sei lá ou ver algum filme, clipe, mas a preguiça de levantar foi grande demais e a preguiça de ficar parado no mesmo lugar, quando seu corpo pede, ah, que delícia. Das mais! Se ajeitou um pouco na poltrona, deu uma tossida alta por algum tempo, riu.  Foi quando ouviu novamente o grito.
Dessa vez soou mais alto, mais tenso, mais dentro da sala. Isso o abalou de tal maneira, que por um tempo ele não conseguiu olhar para trás e ver se tinha alguém na sala. Mas ele conhecia aquela voz, de toda a sua vida. Tinha certeza do que era, mas não podia ser! Não tinha ninguem em casa. Seu pai havia morrido fazia algum tempo. Não podia ser! Era brisa, era nóia, era sei lá, qualquer coisa que não fosse real.
Olhou para trás. Não havia nada. ‘Eu tô ficando doido. só pode.’ se acomodou novamente na poltrona de vime. Quis encontrar aquela paz que tinha ao amanhacer, aquela do céu, do quadro, dos passarinhos. Não conseguiu, ficou frustrado, pensou no tempo. Como em menos de três horas o mundo dentro dele podia ter mudado tanto? Os seus sentimentos e pensamentos antes com cores tão clarinhas, tranquilas, e agora. Agora as paredes internas do seu manicômio estavam cheias de pregos, facas, sangue. Morte.
Teve um calafrio, não gostava de pensar na morte. Aliás, fazia algum tempo que não gostava de pensar em nada. Talvez por preguiça, talvez por medo, talvez porque acabou entendendo que a loucura e o pensar são irmãos de muitos anos. E quanto mais se pensa, mais se quer pensar… mais fundo você chega em algum lugar que não se sabe onde é – algum lugar da mente, talvez inabitada pelas partes racionais que compõem o consciente. Só de pensar nisso, teve raiva de si mesmo. Mas será que a liberdade era isso? Abdicar de pensar por escolha? Ou pensar o bastante, chegar na loucura – existencialismo Sartreano, a maldição do homem.
Entrou no terreno mais baldio da filosofia, da psicologia da ia. o Eu. Se questionou sobre quem era agora, ou melhor, sobre quem estava sendo, se era ele mesmo ou outro nele, se previa o que estava sentindo. Porque ele estava naquela sua fase intensa de não pensar, meio alienado, assim, por opção. O mundo fora da Terra tão melhor.
Se sentiu preso na sua própria liberdade. Se sentiu meio ameba ali, fumando logo ao amanhecer. Pensou nas expectativas, no futuro. Não tinha muita coisa bonita; apesar de estar matriculado na faculdade, não estava frequentando as aulas, não estava estudando, nem trampando, nem tinha compromisso com nada ou ninguém. Estava meio vazio, meio confuso. Não queria ver o tempo passando, por querer que ele passasse rápido demais. Se sentia parado, porque tinha tanta pressa! ‘Tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim’, riu, ‘que bad, que música maldita’. Queria viver. Não queria viver pensando em como viver, mas simplesmente viver. ‘Vi-ver, meu deus, não sobreviver. será que…’ ouviu o grito novamente. Muito mais alto. Muito mais perto. Muito mais animalizado, irracional. Um grito que pedia ajuda.

Dessa vez não teve dúvidas. Era sua própria voz gritando.

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